Vias com canteiros verdes ainda são uma exceção na metrópole cercada pela maior floresta equatorial do planeta
Manaus Uma cidade de clima equatorial que “reclama sombra de árvores para as suas ruas, vias e logradouros”. Assim o Jornal do Comércio descreveu Manaus em sua edição de 29 de outubro de 1960. Sessenta e cinco anos depois, às vésperas de completar 356 anos, o retrato permanece atual: o verde segue sendo exceção em meio ao cinza do concreto.
A falta de arborização é um problema antigo. Em 1973, o mesmo periódico já registrava a morte ou remoção de benjaminzeiros e mangueiras pela prefeitura, descrevendo a cidade como “nua”. Dois anos depois, o Jornal do Comércio noticiava convênios entre o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e o município para ampliar o plantio de árvores, especialmente no então recente Distrito Industrial.
O esforço, porém, não frutificou. Em 1977, a Câmara Municipal voltou a debater a necessidade de arborizar a cidade e apelou para a conscientização da população, defendendo que o cuidado com as árvores deveria ser um dever coletivo. As reportagens fazem parte do acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional — e revelam o quanto o problema se perpetuou.
Cidade quente, sombra rara
Conforme o Censo 2022 do IBGE, Manaus é hoje a sétima capital menos arborizada do país, com apenas 44,8% da população urbana vivendo em ruas com ao menos uma árvore. A capital amazonense aparece atrás de cidades como Goiânia (89,6%), Palmas (88,7%) e Cuiabá (75,5%) — todas localizadas em regiões de cerrado ou com forte presença do agronegócio.
Em 1960, Manaus tinha 153 mil habitantes. Hoje são cerca de 2,4 milhões — quase quinze vezes mais. O crescimento urbano desordenado e o avanço das temperaturas globais agravaram a situação. Segundo a NASA, 2023 e 2024 registraram recordes históricos de calor, com média global 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais.
“O fenômeno conhecido como Ilha de Calor Urbana é cada vez mais perceptível. Estudos mostram diferenças de até 6 °C entre áreas urbanas e rurais de Manaus, especialmente à noite”, explica Leonardo Vergasta, meteorologista e pesquisador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da UEA (LabClim).
Para ele, ampliar a arborização é “uma medida urgente e eficaz” contra o aumento das temperaturas. “As árvores funcionam como condicionadores naturais: oferecem sombra, reduzem o calor e aumentam a umidade do ar”, afirma.
Além do desconforto térmico, Vergasta alerta que o aquecimento impacta a saúde pública e a infraestrutura urbana. “Aumenta o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias e eleva o consumo de energia elétrica, pressionando o sistema urbano”, diz.
Planos no papel
Desde 2012, Manaus possui um Plano Diretor de Arborização Urbana, que define diretrizes sobre espécies e formas de plantio. No entanto, a cidade não possui transparência sobre quantas árvores são plantadas por ano — nem registros consolidados que permitam à população acompanhar o cumprimento das metas.
Falta de parques e consciência verde
Para a engenheira florestal Rose Batista, líder da Associação dos Movimentos Ambientais do Amazonas (AMA), o problema vai além das calçadas. “Manaus sofre não só com a falta de árvores, mas também com a ausência de parques e praças verdes. Existem áreas mais arborizadas, mas são distantes dos bairros. Nem toda mãe tem como pagar passagem e lanche para levar o filho a esses locais”, lamenta.
Rose defende que a prefeitura invista em obras simples e distribuídas pelos bairros. “Não precisa ser nada deslumbrante. Parques pequenos e bem-cuidados já fariam diferença”, diz.
Ela também aponta que a conscientização ambiental da população é essencial. “Quando dizemos que somos de Manaus, todo mundo associa à floresta, mas a cidade em si tem pouco verde. Falta orgulho e cuidado com isso”, observa.
Participação popular e planejamento
A engenheira florestal Fabiana Rocha, mestre em Ciências de Florestas Tropicais, acredita que a arborização precisa ser tratada como política pública com envolvimento da população.
“Mais do que reduzir a temperatura, as árvores melhoram a qualidade do ar, ajudam na drenagem, valorizam os imóveis e tornam os espaços públicos mais agradáveis. São benefícios amplos”, explica.
Fabiana ressalta que o avanço da verticalização urbana agrava o problema. “Hoje, o que se vende em novos empreendimentos são piscinas, churrasqueiras e estacionamentos. As árvores raramente entram nesse pacote”, critica.
Falta de compromisso histórico
Para o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU-AM), Fabrício Santos, o problema da arborização é reflexo de décadas de falta de planejamento.
“Manaus cresceu sem integrar o verde à expansão urbana. A Zona Franca acelerou esse processo e a cidade não acompanhou com políticas ambientais”, explica. Ele defende que a arborização seja uma exigência no licenciamento urbano, com áreas verdes mínimas por lote.
“Enquanto não tratarmos o verde como parte essencial da infraestrutura urbana, continuaremos repetindo os mesmos erros”, afirma.
Promessas e números
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Mudança Climática (Semmas) foi procurada, mas não respondeu. Em janeiro, a gestão municipal anunciou a meta de plantar 15 mil mudas até o fim de 2025, número que teria chegado a 14 mil já em junho. Segundo dados da própria prefeitura, de janeiro de 2021 a agosto de 2025, foram plantadas 44.239 árvores.
Mesmo com esses números, especialistas afirmam que os resultados continuam muito aquém do necessário.
Sessenta e cinco anos depois da reclamação publicada no Jornal do Comércio, Manaus segue pedindo sombra , e esperando que o verde deixe de ser promessa para se tornar parte essencial da cidade.

